Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Portefólio de Psicologia

Portefólio de Psicologia

Fatores fundamentais no processo de se tornar humano

26.11.21

A Cultura 

A cultura é um conjunto de aspetos sociais e culturais que estão presentes em constante interação. Estes vão influenciar a nossa capacidade de adaptação aos desafios colocados ao longo das nossas vidas. É um modo de adaptação que ultrapassa a biologia. Permite que o indivíduo se adapte a novas situações de modo mais eficaz e versátil do que a adaptação orgânica. Designa um conjunto de respostas para melhor satisfazer as necessidades e os desejos humanos.

   A cultura diz respeito às tradições, crenças, valores que são partilhados por uma sociedade em que os comportamentos são passados de geração em geração. Daí a sua influência em cada um de nós. Não existem culturas universais, assim, persiste uma enorme diversidade de padrões culturais.

p-1.jpeg

 

A Socialização    

 A socialização está presente ao longo de toda a nossa vida. Esta consiste no processo de aprendizagem, interiorização e valorização das orientações sociais e culturais. É através desta que nos integramos na sociedade.

familia-fez-com-um-cachorro.jpg

 

Assim, quando nascemos, somos integrados numa família, pertencente a uma determinada sociedade, com a sua língua, tradições, hábitos, valores e práticas sociais, que aprendemos e interiorizamos através da socialização.

O processo de socialização é particularmente significativo durante a infância e a adolescência. Contudo, continua presente durante o resto da vida dos indivíduos. Na verdade, os indivíduos são influenciados pelo meio social envolvente, o que os leva a modificarem constantemente o seu comportamento ao longo de todas as fases da sua vida.

Universitários sofrem com falta de socialização

 

 

Existem duas etapas de socialização, a primária e a secundária.

A primária ocorre durante a nossa infância e permite a aquisição de saberes básicos (língua, alimentação, higiene...) que se desenvolvem através da interação com os agentes de socialização (família, educadores, vizinhos...).

A secundária acompanha toda a nossa vida adulta e permite os ajustamentos em função das alterações significativas (como casar, ter filhos...).

 

 

 

 

A riqueza da diversidade humana

24.11.21

 Nem sempre conseguimos perceber que a cultura está a influenciar os nossos comportamentos, mas quando nos confrontamos com pessoas de outras culturas, acontece um choque e entendemos a nossa própria cultura. Quando na nossa cultura podemos achar algo estranho de se fazer, em outra cultura qualquer, esse algo pode ser extremamente normal.

unnamed.jpg

A diversidade cultural designa a existência de diversas culturas, resultantes de uma característica tipicamente humana: a neotenia.

Como o Homem é um ser biologicamente inacabado, dotado de um programa genético aberto que concede muito espaço às aprendizagens, podemos reparar que em meios distintos e mediante distintas formas de aprendizagem e de adaptação ao meio, os diferentes povos criaram diferentes formas de vida.


«O homem recebe do meio, em primeiro lugar, a definição do bom e do mau, do confortável e do desconfortável. Deste modo os chineses preferem os ovos podres e os oceânicos o peixe em decomposição. Para dormir, os pigmeus procuram a incómoda forquilha de madeira e os japoneses deitam a cabeça em duro cepo. O homem recebe assim, do seu meio cultural, um modo de ver e de pensar. No Japão considera-se delicado julgar os homens mais velhos do que o que parecem (…). Demonstrou-se que a percepção das cores, dos movimentos ou dos sons, está orientada e estruturada de acordo com o modo de existência. O homem retira do meio as atitudes afectivas típicas. Entre os maoris, onde se chora à vontade, as lágrimas correm só no regresso dos viajantes e não à sua partida. Nos esquimós, que praticam a hospitalidade conjugal, o ciúme desapareceu, tal como na Samoa; em compensação a morte de um inimigo pessoal aceita-se como um acto normal, ao passo que a guerra surge como o cúmulo do absurdo; a morte não parece cruel, os velhos aceitam-na como um benefício e todos se alegram por eles. (…) A piedade para com os velhos varia consoante os lugares e as condições económicas e sociais: alguns índios da Califórnia estrangulam-nos, outros abandonam-nos nas estradas. O amor e os cuidados da mãe pelos filhos desaparecem nas ilhas do estreito de Torres e nas ilhas Andaman, em que o filho ou a filha são oferecidos de boa vontade aos hóspedes da família como presentes, ou aos vizinhos em sinal de amizade. A sensibilidade a que chamamos ‘‘masculina’’ pode ser, de resto, uma característica ‘‘feminina’’, como nos Tchambuli, por exemplo, em que na família é a mulher que assume a direcção e domina. Os diferentes povos criaram e desenvolveram um «estilo de vida» que cada indivíduo aceita – não sem reagir, de resto – como um protótipo. Como se acaba de ver, não há uma verdadeira natureza humana, no sentido em que se diz natureza química, que se define de uma vez para sempre pelas características das suas propriedades. No entanto, é inegável que o homem, em sociedade, actualiza possibilidades que o distinguem incontestavelmente dos animais superiores.»

MALSON, Lucien – As Crianças Selvagens

 

Padrões de Cultura

beautiful-bonding-enjoyment-friends-thumbnail.jpg

 

Os padrões de cultura correspondem a modelos de comportamento, pensamento, valores e formas de agir de uma dada cultura que são partilhados pelos membros de uma determinada sociedade. Constituem o código (baseado em normas, valores) que permite identificar indivíduos e grupos.

Estes padrões permitem prever, até certo ponto, o comportamento das pessoas que pertencem a uma comunidade. Definem a maneira como o ser humano deve agir de modo a que a sua conduta seja apropriada, enquadrando as experiências individuais e colectivas.

 




As crianças selvagens

13.11.21

As “crianças selvagens” são crianças que cresceram privadas de todo o contacto humano, ou cujo contacto humano foi mínimo. Podem ter sido criadas por animais (frequentemente lobos) ou, de alguma maneira, terem sobrevivido sozinhas. Normalmente, são perdidas, roubadas, vítimas de situação de abuso ou abandonadas na infância e, depois, anos mais tarde, descobertas, capturadas e recolhidas entre os humanos.

Estas crianças apresentam características muito particulares, no momento em que são encontradas, possuem uma linguagem, sobretudo linguagem mímica, em alguns casos imitativa dos sons e dos gestos dos animais com quem viveram. A sua linguagem verbal é quase sempre nula ou muito reduzida e varia de caso para caso, conforme o tipo de isolamento e a idade a qual aconteceu. A sua capacidade para aprender uma língua no seu regresso à sociedade humana é muito variada. Algumas nunca aprendem a falar, outras aprendem algumas palavras, outras ainda aprenderam a falar correctamente, o que provavelmente indicia que tinham aprendido a falar antes do isolamento. As crianças selvagens exibem o comportamento social das suas famílias adoptivas. Não gostam em geral de usar roupa e alimentam-se, bebem e comem tal como um animal o faria. A maioria das crianças selvagens não gosta da companhia humana e percorrem longas distâncias para a evitar.

neel-sethi-jungle-book.jpg

As crianças selvagens não se riem ou choram, apesar de eventualmente poderem desenvolver alguma ligação afectiva. Manifestam pouco ou nenhum controlo emocional e, muitas vezes, têm ataques de raiva podendo então exibir uma força particular e um comportamento claramente selvagem. 

 

Os casos mais conhecidos e que ficaram célebres, foram:

  • Menino selvagem Aveyron;
  • Amala e Kamala;
  • Gennie;
  • Criança-lobo de Hesse;
  • Criança da Baviera;

Entre os casos mais conhecidos, temos ainda o caso de Isabel Quaresma, em Portugal.

Isabel Quaresma

original.jpg

 

Isabel Quaresma é um caso português que relata uma menina que viveu a sua infância num galinheiro.

Na verdade, ainda que tivesse mantido algum contacto com a sua mãe, é muito provável que esta pouco ou nada falasse com a sua filha, limitando-se a alimentá-la como alimentava as galinhas.

Quando Isabel foi encontrada possuía algumas características físicas específicas, tais como:

  • Subdesenvolvimento ósseo;
  • Grande debilidade;
  • Cabeça muito pequena para a idade;
  • Calos nas palmas das mãos;

Maria_Isabel_menina_galinha_01.jpg

Em termos comportamentais, revelava atitudes consideradas extremamente agressivas ou estranhas, ( como comer o seu próprio cabelo)

Relativamente a processos de instrução, verifica-se que Isabel consegue aprender algumas coisas básicas, como:

  • Descascar laranjas e bananas;
  • Abrir algumas portas;
  • Pegar num lápis e riscar;

Em suma, o modo como estas crianças se relacionam com os outros e com o mundo provoca em nós uma estranheza fundamental. Não nos reconhecemos nelas, elas não se reconhecem em nós. Mas as suas capacidades e as suas características mostram como dependemos de outros, do contacto físico e sociocultural com eles, para nos tornamos os seres humanos que somos.

Estes casos demonstram que ser humano é mais do que pertencemos a uma espécie de seres com determinada biologia e estrutura corporal, tornamo-nos humanos através da aprendizagem de formas partilhadas e reconhecíveis de ser e de nos comportarmos. Estas crianças crescem isoladas do contacto com outros humanos, o seu comportamento é feito da ausência de qualquer contacto social, e por isso não tiveram qualquer tipo de aprendizagem de comportamentos, normas, práticas e valores de uma determinada comunidade, ou seja, não tiveram qualquer processo de socialização, ainda que em alguns casos a socialização primária acontece. O seu comportamento social não é em geral, orientado para outros seres humanos, nem segue os mesmos padrões, podendo aproximar-se, em alguns casos, do dos animais que interagiram, quando existia uma interacção de tipo social com outros animais. Tudo isto me leva a concluir que o papel das interações sociais é fulcral no desenvolvimento humano.