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Portefólio de Psicologia

Portefólio de Psicologia

A obediência

27.03.22

A palavra obediência é considerada pelo dicionário como o "cumprimento da vontade alheia", "submissão a uma autoridade". No ramo da psicologia, Stanley Milgram assumiu um papel importante no estudo deste fenómeno.

"Será que Eichmann e seus milhões de cúmplices no Holocausto estavam apenas cumprindo ordens? Poderíamos chamá-los de cúmplices?" (Milgram, 1974).

 
 
 
 
A experiência de Milgram:

Esta experiência, feita por Milgram tinha como objetivo o estudo das reações individuais face a indicações concretas de outros. A obediência era medida através das acções manifestadas e implicava comportamentos fontes de sofrimento para outros.
 
 
A Experiência:
  1. Um voluntário apresentava-se para participar na experiência, sem saber que seria avaliado na sua capacidade de obedecer a ordens. Era colocado no comando de uma falsa máquina de infligir choques, os sujeitos eram encarregues num suposto papel de “professor” numa experiência sobre “aprendizagem”.
  2. A máquina estava ligada ao corpo de um homem mais velho e afável, que era submetido a uma entrevista numa sala ao lado. O voluntário podia ver o homem mais velho, mas não era visto por ele;
  3. O voluntário era instruído por um investigador a accionar a máquina de choques sempre que a pessoa errava uma resposta. A intensidade dos choques aumentava supostamente 15 volts por cada erro cometido, desde 15 (marcado na máquina como “choque leve”) até 450 volts (marcado na máquina como “perigo: choque severo”);
  4. À medida que a intensidade dos choques aumentava, a pessoa queixava-se cada vez mais até se recusar a responder. Assim, o experimentador ordena o sujeito a continuar a administrar choques. ”Não há alternativa, tens que continuar”;

 

Após alguma pesquisa consegui encontrar áudios oficiais da experiência:

Clipe 1: Este é um longo clipe de áudio do 3º participante dando choques ao ator. É possível ouvir os apelos do ator para ser libertado e as instruções do experimentador para o participante continuar.

Clipe 2: Um pequeno clipe do ator dizendo recusar-se a continuar a experiência.

Clipe 3: O ator começa a reclamar de problemas cardíacos.

Clipe 4: É ouvido o ator a fingir levar um choque: "Deixe-me sair daqui. Deixe-me sair, deixe-me sair, deixe-me sair" 

Clipe 5: O investigador diz ao participante que ele deve continuar.

The Milgram Experiment Showed That Anyone Could Be A Monster
 
 
Mesmo testemunhando sofrimento, a maior parte dos voluntários continuava a obedecer às ordens e infligindo choques cada vez maiores. A intensidade máxima, 450 v, significaria hipoteticamente matar a outra pessoa,e, ainda assim 65% das pessoas obedeceram às ordens até ao fim e deram o choque supostamente fatal.
 
Como concluiu Milgram:
 

“Os aspectos jurídicos e filosóficos da obediência são de enorme importância, mas dizem muito pouco sobre como a maioria das pessoas se comporta em situações concretas.

Montei uma experiência simples na Universidade de Yale para testar quanta dor um cidadão comum infligiria a outra pessoa simplesmente porque foi ordenado por um cientista experimental.

A autoridade absoluta foi colocada contra os mais fortes valores morais dos sujeitos [participantes] contra ferir os outros, e, com os ouvidos dos sujeitos [participantes] zumbindo com os gritos das vítimas, a autoridade venceu na maioria das vezes.

A extrema disposição dos adultos de fazer quase tudo sob o comando de uma autoridade constitui a principal descoberta do estudo e o fato que mais exige explicação urgente.'

 
 
Com este estudo, Milgram conseguiu estabelecer os principais fatores que impulsionam a obediência:
 
 
Proximidade da vítima
 
Se a vítima só podia ser ouvida, 65% dos sujeitos iam até ao limite.
 
Se houvesse contacto visual a percentagem baixava. Contudo, mesmo quando os sujeitos eram eles próprios a manter a mão do aprendiz sobre uma placa metálica, 30% iam até aos 450 volts.
 
 
 
Proximidade com a figura de autoridade:
 
Quando o experimentador dava as instruções pelo telefone só 20.5% continuavam a obedecer, enquanto que a taxa aumentava quando o instrutor ordenava presencialmente.
 
 
 
Legitimidade da autoridade:
 
Quando a experiência era conduzida num edifício normal de escritórios a obediência caiu para 48%
 
 
 
Influências sociais:
 
Se estivesse presente um segundo sujeito que obedecia, a obediência chegava aos 92%. Se o outro recusava, somente 10% dos sujeitos chega aos 450V.
 
 
 
As opções metodológicas deste estudo levantaram alguns problemas do ponto de vista ético pois podemos questionar se seria legítimo induzir os sujeitos experimentais em erro numa questão tão delicada quanto esta. Quem efectivamente acabava por sofrer algum dano era o sujeito "agressor" que podia ficar afectado psicologicamente por ter sido levado a pensar que tinha provocado sofrimento a outra pessoa. Pessoalmente não me acredito que esta experiência teria causado danos psicológicos de grande importância. O próprio Milgram teria questionado os integrantes da experiência acerca do assunto, e, aparentemente, 83,7% dos participantes admitiram estarem "alegres por terem participado na experiência", enquanto que apenas 1.3% exprimiram que "desejavam nunca ter concluído a experiência. 
 
 
De qualquer forma, esta experiência chocou profundamente a sociedade americana. Sendo que na época dos Julgamentos de Nuremberga criminosos nazis utilizavam como argumento o facto de apenas terem comprido ordens de superiores, estes resultados colocavam criminosos nazis e americanos comuns no mesmo patamar.
The Milgram Experiment Showed That Anyone Could Be A Monster
 
 
Considero esta uma experiência bastante interessante e necessária para o melhor entendimento da mente humana.